1. "Memento, homo ... " (elegia para um companheiro velho)
Aqui mesmo nesta sala
muitas vezes o via.
Observava-o. Semiencurvado
sobre o amigo livro
ele, meu amigo,
isolava-se de tudo.
Nada ouvia.
Nada falava.
Nada sentia.
Esses momentos vivia-os
para o livro amigo, exclusivamente.
Talvez, mesmo, seu único companheiro.
Seu confidente solitário.
Agora está morto.
"Reversus est ad locum suum."
Agora é nada.
É pó - caído.
Mas ... parece que o vejo:
levanta-se da terra;
resmunga alguma coisa;
bate o pó de sua roupa
e ... corre,
alucinado,
apavorado de si mesmo,
de seu espectro,
de seu cadáver.
Eis que entra por aquela porta.
Sim, lá está ele:
quieto, tranquilo, circunspecto.
Inclina-se sobre o livro amigo,
faminto de novos conhecimentos.
Isolado de todos e de tudo.
Nada ouve.
Nada fala.
Nada sente.
Há um segundo sua cabeça pendeu sobre a mesa;
cansado, adormeceu.
Sim, ele dorme.
Mas não o sono ligeiro.
Meu amigo faz sua sesta derradeira.
E o vejo, dormindo assim,
tranquilamente,
eternamente,
sob a terra que tão bem soube honrar!
E nada ouve,
e nada fala.
E nada, e nada,
pois já nada sente.
(1968/69)
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